Deputado Estadual Durval Ângelo

Histórias que vivi

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Morreu Fausto Drumond. “Quando um velho morre é como se uma biblioteca inteira tivesse queimado”


Fausto Drumond, ou Faustão, como carinhosamente o chamávamos, era uma memória viva das lutas políticas e sociais do Brasil desde a década de 1940. Diz o ditado africano: “Quando um velho morre é como se uma biblioteca inteira tivesse queimado”. A morte de Fausto Drumond, que ocorreu no final do ano passado, é o fim de uma ampla biblioteca sobre as lutas políticas e sociais do povo mineiro e brasileiro nos últimos 70 anos. 

Fausto Drumond foi um dos grandes líderes das lutas sindicais e populares do período pré-1964, foi preso político e retomou as lutas com a redemocratização do Brasil. Ele dedicou 70 anos de sua vida ao sindicalismo bancário e às campanhas nacionalistas que mudaram o Brasil. Foi presidente do Sindicato dos Bancários de Belo Horizonte nos anos de 1959 e 1960. Participou ativamente da campanha “O petróleo é nosso”, que resultou na criação da Petrobrás, e na campanha “O minério não dá duas safras”. Representou os bancários no Instituto de Previdência – IAPB. Com a ditadura militar, foi preso político por quatro anos. Com a redemocratização, reintegrou ao Sindicato dos Bancários na gestão da CUT, e foi presidente da Federação dos Aposentados e Pensionistas – FAP/MG. 

Alguns dos relatos fantásticos que ouvi de Fausto Drumond 

Eu sempre gostei muito da história contada pelos seus protagonistas. Fausto me relatou, em inúmeras conversas, algumas passagens que me deixaram impressionado. (...) Ele estava em Cuba uma semana antes da invasão da Bahia dos Porcos, patrocinada pelos Estados Unidos, que foi rechaçada pelo povo cubano. (...) Em 1964, ele estava no Rio Janeiro, quando chegaram os militares de Minas Gerais, e muitas pessoas democráticas aplaudiram acreditando serem “os tanques da legalidade” e não os do golpe militar. (...) Fausto foi preso por ser do Partido Comunista, sem nunca ter sido, e nunca reclamou disto e uma das “provas” contra os diretores do Sindicato presos foi uma caixa de um mimeógrafo importado da Checoslováquia, que, segundo os militares, confirmava o armamento dos líderes sindicais. (...) Fausto recusou uma carteirada certeira do seu cunhado, famoso colunista do jornal O Globo e intimamente vinculado aos militares, para tirá-lo da cadeia, porque considerou que não seria correto ser libertado desta maneira e deixar seus companheiros na prisão. (...) Fausto foi punido certa vez na cadeia com a negação do banho de sol e não teve a solidariedade de seus colegas, o que fez com que ele não trocasse nenhuma palavra a mais com eles nos anos seguintes em que ficou preso. 

Com Fausto e outros líderes recuperei o sentido histórico de nossas lutas

Fausto Drumond foi uma figura marcante em minha vida. Conquistar a sua amizade e admiração, que foi muito difícil, foi um de meus grandes feitos políticos e pessoais. Sabemos que aconteceu no Brasil, em função da ditadura militar, um corte histórico entre as lideranças de esquerda de antes e de depois de 1964. Com a redemocratização, surgiram o PT e a CUT, dos quais fui um dos fundadores. Minha geração foi muito arrogante ao menosprezar muitas experiências positivas da esquerda pré-1964 e de seus dirigentes. Isso sempre foi motivo de insatisfação e mágoa de homens e mulheres que sacrificaram suas vidas e não mereceram o reconhecimento das lideranças de esquerda que emergiram nas décadas de 1970 e 1980. 

Foi necessária uma vivência democrática para que pudéssemos restabelecer alguns laços históricos rompidos pela ditadura militar. No meu caso, a principal ponte que estabeleci com os velhos dirigentes comunistas, socialistas e democratas cristãos foi os estudos que realizei sobre previdência social, que é um programa social baseado num pacto entre gerações. Todos ficaram impressionados comigo, ou seja, como um jovem militante conseguiu se interessar por um assunto que restabelece pontes com o passado e projeta a solidariedade para o futuro. 

Consegui em Minas Gerais aproximar o movimento dos aposentados das novas gerações cutistas, quando firmei amizade com grandes dirigentes como Fausto Drumond, João Vieira, José Bujioni. Cheguei mesmo, com os estudos de previdência, a ganhar a confiança do histórico dirigente do PCB, Armando Ziller, um dos maiores líderes mineiros e brasileiros do período pré-1964. Conheci melhor Armando Ziller através de Fausto Drumond, que me relatava a força popular do dirigente comunista, que não era um orador inflamado, mas um líder que dialogava nas assembléias com os bancários, em voz pausada, e exercia sobre eles uma liderança impressionante. Encontrei com Ziller em um congresso do PT no Mineirinho, ele me convidou para visitá-lo, mas, infelizmente, antes de conhecê-lo melhor ele morreu. Com a aproximação com os velhos dirigentes populares resgatei, através de “uma biblioteca viva”, o sentido histórico de nossas lutas.   

Com Fausto aprendi que o socialismo é uma forma de vida

Fausto Drumond tinha excepcionais qualidades políticas e pessoais. Era uma pessoa de enorme espírito público, defensor da unidade das forças populares e avesso às disputas políticas menores e mesquinhas, que muitas vezes consomem boa parte das energias da esquerda. Era austero, não tinha apego pelas riquezas materiais e era contrário a toda forma de privilégios. Tinha espírito independente e não aceitava cabresto político, seja da direita ou da esquerda. Era uma pessoa extremamente ética e leal. Era um dos maiores socialistas que conheci, sem nunca ter se filiado a um partido de esquerda. Com Fausto aprendi que o socialismo, mais do que um projeto de sociedade, é uma forma de vida.

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