Deputado Estadual Durval Ângelo

Histórias que vivi

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“Nada do que é humano me é estranho”. Este pensamento salvou a minha vida


Sou filho de uma família de pequenos proprietários rurais de Simonésia, no Leste de Minas. Sofri uma opressão brutal na infância e fui empurrado para o trabalho infantil aos 10 anos de idade. Tenho 57 anos e 47 anos de trabalho. Até hoje tenho dificuldades de descansar e ter o meu merecido direito à preguiça, pois meu corpo e minha mente foram condicionados para o trabalho.

Felizmente, consegui, com meus pais ainda em vida, descobrir muitas razões para gostar deles. Meus pais foram amolecendo o coração com o passar do tempo e eu fui diminuindo a raiva deles, e conseguimos fazer uma bonita reconciliação. Os dois me criaram na escuridão, mas, contraditoriamente, me empurraram para a luz. Os dois romperam com a cultura rural à época, onde os filhos eram apenas “braços para a lavoura” e ofereceram para mim e meus seis irmãos a educação. Foram guerreiros que saíram da vida dura do campo e trouxeram os sete filhos para serem educados na cidade.

Ingressei na Universidade no curso de Economia, primeiro na Newton Paiva, e depois me transferi para a PUC Minas. Vivia naquele momento uma crise existencial avassaladora. Me estranhava e me considerava um ninguém. O conhecimento das idéias do filósofo Karl Marx, na PUC Minas, me salvou. Quem me trouxe para a vida política e provavelmente salvou minha vida, foi o professor de Sociologia, Carlos Magno, que era militante do PCdoB naquela época e foi mais tarde presidente do Sindicato dos Professores. Eu o contrariei porque, ao invés de entrar para o PCdoB, eu entrei para o PT. A última vez que o encontrei, ele tinha saído do PCdoB e estava assessorando um vereador do PT de Belo Horizonte.

“Nada do que é humano me é estranho”. Este pensamento mudou o rumo de minha vida. Sua fonte original é de uma peça de Públio Terêncio, comediógrafo latino do século 2 a.C., mas foi reescrito e popularizado por Karl Marx, que o tinha como a máxima preferida. Mario Sérgio Cortella, em artigo publicado na Folha de S.Paulo, afirma que este pensamento para Marx remetia à sua convicção na idéia da fraternidade e humanidade coletiva. Mas na peça de Terêncio seu sentido era diverso: “muito menos honroso do que aquele propugnado por Marx”. Ou seja, o ser humano com seus grandes defeitos e perversões. 

Talvez, sem querer, realizei um diagnóstico do “Nada do que é humano me é estranho” mais próximo a versão inicial de Terêncio, para romper com a minha estranheza e entender a minha situação, e adotei os princípios transformadores de Karl Marx para mudar a minha vida. Pensamentos marxianos me influenciaram muito, como são exemplos: “Os filósofos limitaram-se a interpretar o mundo de diversas maneiras; o que importa é modificá-lo”; ou “Ser radical é agarrar as coisas pela raiz, e a raiz para o homem é o próprio homem”. Mais uma vez lembro o professor Carlos Magno, uma pessoa calma e atenta, que reconheceu o meu potencial e sempre representou uma referência para mim do ser radical, que nada tem a ver com o sectarismo, mas com a capacidade “de agarrar as coisas pela raiz”.

Cada um tem uma razão para ter se tornado de esquerda, de centro ou de direita. Passei por enormes privações materiais, mas não foi isso que me empurrou para a esquerda. Há uns 20 anos atrás encontrei com uma ex-colega de Faculdade, em um sábado à tarde, em Belo Horizonte, e ela me perguntou o que eu estava fazendo. Respondi-lhe que tinha aderido à CUT e ao PT. Ela afirmou: “Você fez isso, por você é um oprimido”. Ao me criticar, ela acabou acertando o diagnóstico: eu era um oprimido. Eu me tornei de esquerda por razões existenciais, para viver de forma mais livre e para lutar contra toda forma de opressão.

Ao longo de minha vida me apeguei a alguns princípios básicos: a compaixão e profunda solidariedade com os mais pobres; a repulsa a todo tipo de discriminação; e aos princípios democráticos, que devem ser aprofundados com uma revolução democrática, tal como propugna Juarez Guimarães e Tarso Genro.

P.S. Assisti, recentemente, em companhia da Marília, o filme francês “Amour”, que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro de 2013. O que me impressionou é a proximidade com a história dos meus pais, Otávio e Lourdes, na velhice. No filme, o marido cuida, em casa, com enorme emoção e dedicação, de sua mulher, que tinha uma doença e estava em estado terminal. Na minha casa, meu pai cuidou, também em casa, durante diversos anos, de minha mãe também em estado terminal, como se fosse uma missão de vida dele. A diferença é que no filme, por amor sugere o diretor, o marido mata a mulher para interromper o sofrimento de ambos. Na minha família, meu pai cuidou de minha mãe até o suspiro de vida dela. 

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