Deputado Estadual Durval Ângelo

Economia

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“Coligação dos juros altos”, que decretou guerra a presidenta Dilma, é muito mais ampla do que parece


Existe entre os empresários um enorme mau humor com a presidenta Dilma. Mas como assim? Dilma no seu mandato implementou políticas que eram reclamadas por lideranças empresariais há anos: como a redução da taxa de juros; a melhoria do câmbio para favorecer as exportações; a desoneração tributária; e a redução do preço da energia elétrica. Mas a presidenta foi surpreendida pela “coligação dos juros altos”, que é muito mais ampla do que parece.

O jornal Valor Econômico, estampou manchete no dia 07-10-2013: “Dilma agirá para abrandar a desconfiança dos empresários”. O jornal explica o mau humor: “O Palácio do Planalto avalia que cometeu dois erros de cálculo. Um foi imaginar que a queda de 525 pontos da taxa de juros entre agosto de 2011 e março deste ano - período em que a Selic saiu de 12,5% para 7,25% ao ano - implicaria em um enorme incentivo ao investimento privado. Outro foi abrir mão de mais de R$ 70 bilhões em receitas para conceder desonerações de tributos, comprometendo a meta fiscal, para colher um aumento do investimento que não veio. (...) "Foi uma ilusão do governo", comentou uma fonte da presidência da República, explicando que ambas as medidas eram demandas que a presidente colheu junto aos próprios empresários nas reuniões que manteve com eles no ano passado. (...) Ao contrário do que pensava o governo, segundo essa mesma fonte, o que ocorreu foi uma queda do lucro financeiro das empresas, pela redução dos juros, e a recuperação de margem de lucro com a desoneração. Agora Dilma quer retomar, sob novas bases, a interlocução com o setor privado vislumbrando, também, um eventual segundo mandato”.

Populismo impede esquerda de enxergar a dimensão do rentismo

Somos de uma geração de esquerda, educada politicamente de forma primária, no combate ao capital financeiro e ao rentismo no Brasil. Para facilitar a comunicação de massas simplificamos, de forma populista, nossos questionamentos. Tratamos o capital financeiro como sendo algo autônomo em relação aos outros segmentos da economia (os serviços para além dos bancos, a indústria, o comércio, a agricultura) e também em relação à sociedade. Sempre combatemos a “meia dúzia de banqueiros” que exploram a todos, ou a “bolsa banqueiro” que os bancos embolsam com os juros estratosféricos. Esta autonomia do capital financeiro não existe. Só existe em nossa publicidade limitada e de má qualidade. O certo é que o capital financeiro se fundiu com outros segmentos da economia e tem bases em diversos setores da sociedade.

A “coligação dos juros altos” é muito maior do que podemos imaginar. Bancos compraram empresas; empresas compraram bancos; empresas aplicam suas disponibilidades financeiras em renda fixa; o grande comércio não quer vender à vista, prefere o parcelamento em diversas prestações “sem juros”, na verdade com os juros já embutidos; Estados e municípios aplicam os recursos disponíveis em títulos do governo federal e alavancam suas receitas; a classe média tem suas aposentadorias privadas financiadas, em grande medida, pelos ganhos com os títulos do governo; mesmo trabalhadores vinculados a sindicatos de esquerda têm os seus grandes fundos de pensão e são grandes aplicadores institucionais em renda fixa; os servidores, agora com a criação da previdência complementar, e com os regimes de capitalização dos Estados e municípios ficarão também dependentes de aplicações financeiras.

Muitos destes segmentos podem ser ganhos para uma política de forte redução dos juros, mas as insatisfações são muitas. Até Fernando Henrique, recentemente, expressou o mal estar com os juros baixos, o que é um indicativo do humor da classe média tradicional com a queda dos juros da renda fixa. FHC aplicou R$ 222,3 mil numa empresa de empreendimento imobiliário porque o rendimento no mercado financeiro é baixo. Disse ele: "É difícil encontrar investimento em renda fixa que dê alguma coisa." Nos últimos meses alguns dos principais jornais brasileiros trouxeram longas reportagens com a verdadeira Tensão Pré-Aposentadoria nos segmentos que têm planos de aposentadorias privados, fechados ou abertos. Valor Econômico: “Queda dos juros põe fundos de pensão em encruzilhada” (manchete de capa de 23/07/2012); “Juro baixo e custo alto adiam plano de previdência privada” (chamada caderno de economia da Folha, 04/06/2012) e “Juro real baixo adia data da aposentadoria” (Folha, 26/11/2012). Segundo relatos de especialistas consultados, a queda dos juros poderá implicar que os segmentos de classe média que têm previdência privada tenham que trabalhar de cinco a 15 anos a mais para obter a aposentadoria desejada. A redução da taxa de juros para os menores níveis da história está sendo visto como uma espécie de “quebra de contrato” em relação aos altos rendimentos financeiros que vêm desde o Império.

Até mesmo homens experientes, como Mino Carta, da Carta Capital, expressa a sua mais completa perplexidade com o isolamento de Dilma na política de redução dos juros. Diz ele em editorial da revista: “Há situações que me causam alguma perplexidade. Durante o governo Lula o empresariado queixava-se dos juros escorchantes, com exceção dos banqueiros, está claro. De sua alegria cuidava o presidente do BC, Henrique Meirelles. Em compensação, o vice-presidente da República, o inesquecível e digníssimo José Alencar, defendia com ardor a demanda dos seus pares. (...) Agora o governo Dilma abaixa os juros, e todos se queixam, em perfeito uníssono. Busco uma explicação, embora me tente recorrer a um dos grandes escritores do absurdo, movido pela convicção de que somente eles seriam capazes de explicar o Brasil. Este é um país que consegue viver contradições abissais, a começar pelo seguinte fato: atravessamos no mesmo instante épocas diferentes. A modernidade tecnológica e a Idade Média política e social. (...) No caso dos juros, os lances mais recentes do governo Dilma revelaram outro fato bastante significativo: muitos brasileiros que se dizem empresários são, de verdade, apenas e tão somente especuladores. Contaminados pelo vírus do neoliberalismo, acertaram sua irredutível preferência pela renda no confronto com a produção, e a baixa dos juros os atinge na parte mais sensível do corpo humano, ou seja, o bolso, como disse há muito tempo o professor Delfim Netto. (...) O governo Dilma dá um passo adiante em relação àquele que o precedeu. Mexe com os interesses do poder real, conforme a opinião de analistas atilados. Ousa o que Lula não ousou. E o balanço da primeira metade do seu mandato há de registrar esse avanço em primeiro lugar”.

Esquerda não defende Dilma como deveria

O que impressiona é o silêncio da esquerda na defesa da política macroeconômica de Dilma, que está sob fogo cruzado das elites econômicas. Realizei uma extensa pesquisa na Internet e só achei um único e solitário artigo sobre o assunto. É de Igor Grabois, publicado no portal Viomundo. Ele afirma: “Com Lula, a economia crescia e passou relativamente bem à crise internacional. O crédito cresceu a despeito dos juros altos. Reservas internacionais foram acumuladas em sucessivos superávits comerciais. E houve uma generalizada sensação de elevação dos padrões de vida. (...) Reduzir a Selic e deixar o real depreciar são medidas necessárias para o funcionamento do capitalismo no Brasil. Era inescapável para o governo Dilma. Não são medidas ideológicas, em que pese a cortina de fumaça que cerca esses temas. A taxa Selic, que é a taxa básica de juros da economia, vem descendo desde o ano passado. Com isso, a dívida pública diminuiu em termos de proporção do PIB. O governo reconheceu a manipulação cambial como saída da crise por parte das economias centrais. O dólar saiu de R$ 1,60 em meados de 2012 para R$ 2,15 neste momento. (...) A redução dos juros e a subida do dólar atingiram diretamente quem se beneficiava da arbitragem de juros e câmbio, ou seja, pegar dinheiro barato fora do país e ganhar dinheiro caro aqui dentro. Atingiu especuladores nacionais e internacionais. A subida do câmbio pega quem está endividado em dólar, fugindo dos juros do sistema financeiro brasileiro”. É isso que está por trás da guerra que o capital financeiro, seus aliados e a grande mídia nos últimos meses decretou ao governo Dilma.

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