Deputado Estadual Durval Ângelo

Histórias que vivi

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A discriminação à mulher. Meu olhar como marido de uma mulher que lutou muito para se firmar como liderança política


Sou casado, há 30 anos, com a ex-prefeita de Contagem, Minas Gerais, a petista Marília Campos. Acompanhei de perto o seu enorme esforço para se firmar como liderança política, num ambiente marcadamente masculino. Marília, como muitas mulheres, sempre lutou muito para conquistar luz própria na vida política. Ou seja, para firmar um protagonismo político, independente do parentesco familiar.

Acontece que eu, desde o início de minha militância, tomei gosto pela formação política e escrevi dezenas de publicações sobre política, economia, direitos sociais e grandes painéis introdutórios sobre o Brasil, Minas Gerais e Contagem. Tornei-me um protagonista bastante reconhecido na esquerda mineira por esses trabalhos. Em função disso, muitas pessoas estabeleceram, equivocadamente, uma análise política de que eu seria o grande formulador e Marília uma figura de grande carisma, mas sem conteúdo político.

Tornei-me, sem querer e de forma injusta, um grande adversário de Marília na sua afirmação política. Injusta, porque nunca subestimei minha mulher e sempre a apoiei para as disputas em que ela se apresentou, realizando enorme esforço teórico e como militante de rua. Mudei a minha vida, de militante de massas para um formador político, trabalhando em um escritório em casa, acompanhando o dia a dia dos filhos, o que foi essencial para que Marília pudesse ter mais liberdade e tempo para se dedicar às tarefas grandiosas, como ser prefeita de uma grande cidade como Contagem. Sempre considerei que o apoio familiar é fundamental para quem tem vida pública. Para uma mulher, este apoio familiar chega a ser quase imprescindível.

Sempre tratei a Marília de forma igualitária e sem discriminação. Nunca a subestimei. Ela sempre foi para mim um exemplo a ser seguido de uma militante política completa. Meu objetivo, desde que a conheci, foi me tornar um militante tão ousado e arrojado como ela. Num texto preliminar, que eu acabei não divulgando, para a campanha da Prefeitura de Contagem, em 2012, eu escrevi: “Quem formula uma política, se tem convicção dela, deveria ser o primeiro(a) a se apresentar para implementá-la”. Mas esta caracterização era para mim também um tiro no pé. Sempre fui um formulador político, mas, como muitos outros intelectuais, eu era de uma timidez tremenda nas grandes atividades políticas de rua. 

Marília, como poucas lideranças, incorpora esse espírito teórico e prático. É pensadora e ativista. É, de longe, a nossa principal estrategista política em Contagem. Foram dela algumas das mais importantes formulações políticas, que viabilizaram as vitórias do PT na cidade e os enormes avanços conseguidos na Prefeitura. Esta capacidade teórica está se desabrochando agora na linguagem escrita nas suas bonitas crônicas na sua página no Facebook. Mas Marília é também um exemplo de ativista. Ativismo na gestão, porque ela é uma apaixonada pelo “ver acontecer”, ou seja, é preciso criatividade na formulação política, mas é preciso também garra e competência para implementá-la. E ativismo político para convencer a sociedade da justeza de suas políticas. Marília não manda os seus apoiadores para a batalha sozinhos. Ela os lidera nas ruas da cidade. Vem daí a sua fama de guerreira da esquerda de Contagem.
Eu sempre invejei Marília como um exemplo de mulher guerreira. Recentemente perguntei a ela porque o “guerreiro(a)” está quase sempre associado à mulher e não ao homem? Marília me disse que é porque os desafios da mulher para se firmar como protagonista são muito superiores aos dos homens.

Lembro as eleições de 2008. Marília ali mostrou uma coragem e um espírito guerreiro indescritíveis. Faltando 15 dias para a eleição, mostrei a ela uma pesquisa de um conceituado instituto de pesquisa, que dava ao tucano a vitória em primeiro turno. Ela estava repousando e se preparando para novos atos de campanha. Tudo parecia perdido. Mas ela firmou posição e me disse: “Sinto-me como uma náufraga no mar. Mas não vou desistir. Vou até o limite de minhas forças para nadar até a praia”. Falou isso e partiu para um novo compromisso em Nova Contagem, onde ela sempre buscou energias em seus momentos mais difíceis. Marília ganhou a eleição em primeiro turno e no segundo turno. Mais tarde escrevi: “Marília renasceu politicamente”. Nunca vi um gesto de heroísmo como aquele. Fiquei frustrado, porque não tive o espírito guerreiro dela.

Na campanha eleitoral de 2012 tomei coragem e participei como orador na agitação política nas ruas da cidade. Me senti aliviado porque tornei-me, ainda que tardiamente, um militante mais completo: um intelectual, mas também um guerreiro nas ruas da cidade. Eu, Rodinei e Wander, numa camionete vermelha, com a música de campanha majoritária, fomos às ruas de Nova Contagem, acompanhados por diversos militantes, em defesa de nossas candidaturas. Sempre, com muito orgulho, iniciava as minhas falações me apresentando: “Meu nome é José Prata... sou marido da prefeita Marília Campos...”. 

PRATA_MARILIA.jpg José Prata: “Meu objetivo, desde que conheci Marília, foi me tornar um militante tão ousado e arrojado como ela”.